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Capítulo 7 Por que Jesus fazia milagres? A mensagem de Jesus e o seu estilo pessoal nos deixou uma grande interrogação: Quem é Jesus? Ninguém falou como Ele; deixou em cacos a piedade dos fariseus; apresentou de Deus uma concepção que, encaixando com o que de mais puro havia no pensamento hebreu, ultrapassou-o por completo. Sua palavra é sublime, única, transcendente. Mas, que garantias Ele dá? O que fez Jesus que o autorizasse a falar assim? Se abrirmos o Evangelho, veremos que as palavras de Jesus estão unidas intimamente a obras excepcionais que lhes dão crédito e as fazem eficazes. São os milagres. Seus milagres são sinais inequívocos da chegada do Reino que Ele prega. Os milagres são a garantia e a confirmação da sua palavra e pregação, pois pregação e obras estão intimamente unidas. Além do mais, os milagres são sinais inequívocos da chegada do Reino e manifestam o domínio que Ele tem sobre todos os seres da criação: sobre os espíritos, os homens e os seres irracionais. Antes de realizar o milagre, Cristo pede fé e humildade. Com os milagres Jesus procura a conversão e a volta para Deus. 1. Características dos milagres de Jesus Não se pode separar a mensagem de Jesus dos sinais ou milagres, pois eles confirmam a mensagem. Jesus realiza sempre os seus milagres no contexto do Reino, mirando a conversão. É por isso que Ele repreende as cidades de Cafarnaum, de Corozaim e de Betsaida, porque, mesmo tendo presenciado os milagres, não se arrependeram (cf Mt 11, 20-24). Jesus realiza os milagres como sinais de que o Reino chegou. Fora deste contexto Ele não faz milagre algum. Quando lhe pedem um número de circo, como no caso de Herodes ou na sua própria cidade, Ele se nega absoluto (cf. Mc 6,5; Lc 23,9). Jesus realiza os milagres em seu próprio nome. Não os faz em nome de Javé, como os profetas do Antigo Testamento. Suas palavras são: "Eu te digo, eu te ordeno". Jesus os faz com total simplicidade e movido por amor. Nada de formas mágicas, nem intervenções cirúrgicas; nada de processos hipnóticos ou sugestão. Realiza os milagres comovido interiormente e sempre num contexto religioso. A máxima discrição envolve a sua atividade taumatúrgica. Ele nunca busca a si mesmo, nunca realiza um milagre para deslumbrar. A quem cura, recomenda silêncio. Quando o povo o exalta, Jesus se retira (cf. Jo 6,15; Mc 5, 39; Jo 11,6). Nunca realizou prodígios punitivos para deslumbrar ou explorar o medo do povo supersticioso, como vemos nos apócrifos. Os milagres realizados no sábado trazem o sinal característico da sua atitude anti-rabínica (cf. Mt 12, 9-14; Mc. 1, 1-28; 3, 1-6; Lc. 4, 31-34; 6, 6-11). Os milagres de Cristo têm ainda uma dimensão apologética, ou seja, Ele os realiza como sinais de que o Pai o enviou. Nicodemos assim o reconhece (cf. Jo 3,2), como o cego de nascimento (cf. Jo 9,33). Suas obras provam, portanto, a sua origem divina (cf. Jo 5, 36). 2. Sentido dos milagres de Jesus Com os seus milagres, curas, exorcismos, Jesus pretende destruir efetivamente o domínio de Satanás, que subjuga o homem por meio do pecado, da enfermidade e da morte, e assim estabelecer o reino de Deus na terra e em cada coração. Jesus, com os seus milagres, manifesta a própria onipotência e divindade, feitas amor pelos homens. Tratando de resumir o sentido teológico dos milagres diremos o seguinte: São sinais de conteúdo religioso e estão conectados com a presença do Reino. São sinais de conteúdo soteriólogico e manifestam que Deus salva e é capaz de salvar no tempo. Jesus traz a salvação completa (corpo e alma), uma salvação acima de tudo espiritual, uma salvação eterna. São sinais de sentido cristológico: Jesus é o primeiro milagre de onde se derivam os outros. São sinais de conteúdo trinitário: a origem e a raiz dos milagres é a união de Cristo com o Pai, no Espírito Santo. São sinais de conteúdo escatológico, pois tornam presente uma realidade ainda escondida: o triunfo de Deus e a transformação da natureza em obediência à vontade de Deus. 3. Os milagres de Jesus e a História Há quem admita, sem problemas, a historicidade da mensagem de Cristo, mas não a dos seus milagres. Respondamos. Os relatos dos milagres nos Evangelhos não são um apêndice de que se possa prescindir. No Evangelho de Marcos, concretamente, se prescindirmos do relato da paixão, os milagres de Cristo ocupam 47% do relato. Como disse Trilling, "os relatos dos milagres ocupam um lugar tão extenso nos Evangelhos que seria impossível que todos eles tivessem sido inventados posteriormente e atribuídos a Jesus". Além do mais, os milagres aparecem estreitamente unidos à mensagem de Jesus. Ambos, pregação e milagres, aparecem como sinais da chegada do Reino: têm a mesma intenção e respondem à mesma lógica. Outro dado importante é que muitos milagres de Jesus tiveram um caráter público. Não se trata de rumores, mas de milagres feitos diante de todo Israel, como a multiplicação dos pães (cf. Jo 6), ou a ressurreição de Lázaro, que foi comprovada pelos judeus de Jerusalém. Os Evangelhos, ademais, foram escritos quando ainda viviam os contemporâneos de Jesus, que podiam ter negado os seus milagres ou dizer que eram falsos. Entretanto, ninguém, nem mesmo os inimigos de Jesus, negaram que Ele tivesse realizado prodígios. Os fariseus não puderam negar e usavam o recurso de atribuir o poder ao diabo (cf. Mt 12, 26-27). Uma tradição judia que aparece no Talmude babilônico fala também dos milagres de Cristo atribuindo-os à magia. A historicidade dos milagres de Cristo fica garantida não somente pelo fato de aparecerem em todas as fontes que compõem os Evangelhos, mas também porque, se os compararmos com os relatos helênicos de milagres, aparece uma evidente diferença entre eles, embora relatados com a mesma estrutura (exposição da enfermidade, pedido de cura, cura e ação de graças). Os de Cristo são sóbrios, não há magia, sempre em contexto de oração. O fato de um mesmo milagre ser narrado com algumas diferenças entre os evangelistas avaliza a historicidade, pois eles sempre coincidem no fundamental. As diferenças provêm do estilo dos evangelistas, da sua finalidade concreta para os seus destinatários concretos. Por exemplo: Mateus narra o essencial dos milagres e deixa de lado os detalhes, o anedótico: seu interesse se concentra em Jesus Cristo. Ele descreve os milagres para ensinar a doutrina de Jesus, para orientar no seu seguimento. Os milagres são um meio excelente para mostrar o cumprimento das promessas feita no Antigo Testamento e para ensinar qual é a postura cristã, como se deve crer e esperar. A chegada de Jesus e as suas ações proclamam que Ele é o Messias prometido e que devemos segui-lo. Marcos descreve os milagres acrescentando dados pitorescos que parecem de uma importância secundária: diz o nome do curado (10, 46) e suas reações. Os milagres são sinais da grande novidade e da autoridade de Jesus. Depois de realizar os milagres, aparece o comentário: a admiração dos que presenciaram o fato, seu temor, seu louvor, sua adoração (1,27; 2, 12; 4,41; 5, 14. 20.42; 7,37). A palavra e a ação poderosa de Jesus vão juntas para destruir o poder do maligno e tornar presente o Reino de Deus. Em Marcos, o silêncio cristão, o ocultamento do mistério de Jesus Cristo tem uma finalidade concreta: não desvirtuar o messianismo religioso de Jesus e convertê-lo em político. Lucas interpreta os milagres, conforme a sua teologia, como a presença misericordiosa de Deus em Jesus Cristo. Por isso eles são motivo para louvar e glorificar (18,43; 23,47). Os milagres são muito importantes para mostrar que a salvação já está se realizando no tempo de Jesus, que é o tempo da graça. A força da cura está no próprio Jesus. João narra um número pequeno de milagres (sete). Cada milagre tem um significado profundo: a cura do paralítico lhe dá a ocasião para expor que Jesus trabalha como o Pai (5,17); a multiplicação dos pães, para dizer que Jesus é o verdadeiro pão (6,35); a cura do cego, para dá-lo a conhecer como a luz do mundo (9,57); a ressurreição de Lázaro, para mostrá-lo como Ressurreição e Vida (11,25). Os milagres que Jesus realiza mostram o seu ser. Por isso os que não os aceitam são culpáveis (10,37; 15,24). Esses milagres não são importantes por serem fatos maravilhosos, mas por aquilo que significam; dão testemunho de que o Pai o enviou (5,36), são a manifestação da ação comum entre Jesus e seu Pai (10,30; 14,11). Não cabe dizer que os milagres de Cristo são ambíguos e que só a fé os pode discernir. Não são ambíguas as obras de Deus, mas o coração do homem. Cristo o diz claramente: "Se não acreditais no que digo, crede ao menos nas minhas obras" (Jo 10,38). CONCLUSÃO : Os cristãos mais simples têm uma grande capacidade para compreender a presença de Deus na sua história. Recorrem a Ele com freqüência e experimentam a sua ajuda. Esta é uma verdadeira experiência cristã. Pois bem, quando ocorrerem casos de desequilíbrios psicológicos e de falsos milagres, será a própria Igreja, como Mãe e Mestra, quem irá orientando amorosamente os seus filhos a não caírem nos excessos. Quando necessário, explicará também a quem se deixar levar por um racionalismo exacerbado e negar todo feito sobrenatural, comprovado e ratificado, para eles saberem se abrir com fé à ação de Deus que opera não contra as leis físicas, mas indo além das leis físicas. |
Sara Elena pergunta:
Bento XVI aos sacerdotes (I): não basta fazer <www.zenit.org, Junho 16> Lições do Papa: sofrimento da Igreja à luz de Fátima <www.zenit.org, Maio 19> Questão da ética na informação eclesiástica <www.zenit.org, Maio 19> | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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