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Capítulo 10
Jesus diante dos seus inimigos

Quando lemos o Evangelho, estranhamos que pudesse haver gente que tinha inimizade e não gostava de Jesus. Se Jesus é bondade, mansidão, compreensão, coração aberto, como é que pode haver quem não o ame? Não é compreensível por que Ele tenha tido inimigos. Tem de ser obra do grande inimigo que quer se servir de alguns para desfazer Jesus, o Caminho, a Verdade e a Vida. Todas as potências do mal se lançaram contra o Justo. A inveja, o ódio, a soberba, a mentira, a falsidade se uniram para destruir o Santo. Por quê? Quem venceu esta luta?

 

Durante a sua vida terrena, Jesus teve inimigos que não quiseram aceitar a sua missão salvadora. A postura que Ele adotou a seu respeito foi a de os converter e atrair para o seu divino coração, umas vezes com palavras suaves, outras exigentes; algumas vezes preferindo o silêncio respeitoso; outras, a frase sagaz e inteligente. Não conseguiu conquistar a todos para o Pai, porque os respeitou na sua liberdade. Ele veio, porém, para salvar a todos.

 

1. Os inimigos de Jesus

 

Devemos esclarecer o seguinte: Jesus não considerou ninguém como seu inimigo. A todos amou e por todos derramou o sangue preciosíssimo. Eram eles, os que não o aceitaram, os que se consideravam seus inimigos. Quem eram eles?

 

Primeiro, os inimigos religiosos, sobretudo as autoridades e os estudiosos: fariseus e escribas. Odiavam a Jesus e queriam se desfazer dele, porque Cristo criticava muitas coisas da lei que Ele viera superar e mudar. Era um golpe duro demais para eles. Cristo quis mudar os seus corações, para eles se abrirem à lei do amor, da caridade que Ele tinha vindo trazer. Os fariseus e escribas se julgavam possuidores do poder de Deus, da autoridade de Deus. Tinham a Deus bem metido nos seus rolos de pergaminho frios e sem espírito e amor. Manejavam a Deus como um fantoche. Era um Deus de bolso. Um Deus rolo e papel. Tinham medo de Jesus, medo que Ele desmontasse toda essa estrutura construída de aparências e de palavras mortas sem caridade. E como eles não faziam nenhum milagre, tinham inveja, tinham raiva de que as pessoas seguissem Jesus, amassem Jesus, admirassem Jesus. Jesus rompia com os esquemas mentais dos fariseus, jogava por terra os cenários ocos de papelão. Batia de frente contra eles para ver se rompia a sua obstinação e assim lhes trazia a salvação. Mas eles se fechavam mais e mais. Criticavam-no e o caluniavam. Jesus continuava amando e esperando por eles. Conseguiu conquistar José de Arimatéia e Nicodemos. E os outros?

 

Também teve inimigos no campo civil como os reis e os romanos. Por que o tinham como inimigo? Porque Ele se dizia Messias, com uma certa carga (ao menos aparente) de provocador da ordem pública e da soberania de Roma. Herodes teve medo de uma criança recém-nascida. Por quê? Pilatos se deixou influenciar pelos chefes religiosos, não tinha personalidade definida, vivia com medo de perder o posto. Se lhe dizem que Jesus é um falso Messias, Pilatos sorri, mas se afirmam que é um agitador que incita a plebe contra Roma, não vacila em condená-lo à morte. Pilatos caiu na armadilha dessa mentira, em vez de se certificar por si mesmo da verdade dos fatos. E quando se certifica da própria Verdade em pessoa, se levanta e vai embora. Ao cético Pilatos foi concedida a sorte, naquele único dia da sua vida, de contemplar o rosto da Verdade, a suprema verdade humana, e ele não soube vê-la. A Verdade vivente, a Verdade que poderia ressuscitá-lo e fazer dele um homem novo estava diante dele, coberta de carne humana, de vestes simples, com o rosto esbofeteado e as mãos atadas. Mas ele não percebe, na sua soberba, a extraordinária riqueza que lhe coube em sorte, riqueza que milhares de pessoas invejariam depois da sua morte. Disse Papini em sua História de Cristo: "Quem lhe tivera dito que só por esse encontro, só pela honra de ter falado com Jesus e de tê-lo entregado à cruz, o seu nome seria conhecido, ainda que infame e maldito, por todos os séculos e por todo o gênero humano".

 

O próprio povo, a massa, nem sempre acolheu a Cristo. Esperava um tipo de Messias libertador político. Cristo faz essa gente ver que não veio para isso. Os clássicos dizem que a plebe é de ordinário volúvel, muda de opinião facilmente, não tem personalidade própria. Marcha no ritmo que os dirigentes marcam ou no daqueles de quem pode tirar alguma coisa em proveito. O povo viu os milagres de Jesus, ouviu a Jesus. Mas, pelo visto, só esperavam um Jesus que lhes solucionasse os problemas sociais, econômicos e de saúde. E quando Jesus impunha as condições para o seguirem, voltavam atrás.

 

2. Como Jesus agiu diante desses inimigos?

 

Diante dos chefes religiosos: fariseus e escribas

 

Lutou fortemente contra o farisaísmo. Sem o farisaísmo não se explica a luta de Cristo. Não teríamos jamais conhecido a faceta forte e terrível de Jesus. Teríamos ficado com um Cristo doce demais, brando e bastante condescendente.

 

Jesus entende e perdoa os pecados da carne. Entende e perdoa as ambições dos apóstolos. Entende e perdoa a inconsciência dos seus, e as ambições terrenas das pessoas. O que não entende e contra o que luta com toda a força e vigor é o farisaísmo, porque é uma caricatura da religião, a corrupção da religião. A religião não consiste em cumprir preceitos externos enquanto o coração está empedernido, fechado, imisericorde! De que servem mil práticas de piedade, se eu não tenho amor no coração, amor a Deus sobre todas as coisas e amor ao próximo? Se eu só cumpro para aparecer?

 

Os fariseus são o negativo fotográfico de Cristo, o contrário de Cristo. De alguma forma são o anticristo, sem dar a este termo nenhuma conotação apocalíptica. Por isso o farisaísmo matou a Cristo, tramou e conseguiu a sua morte. O fariseu não tem outra alternativa: ou aceita a Cristo e se converte a Ele, ou o persegue e assassina. O fariseu não age com meias medidas.

 

Jesus desafiou publicamente a corrupção farisaica. Chamou-os de víboras, ladrões, homicidas, filhos e imitadores do diabo. Pôs à vista os seus principais pecados: avareza, hipocrisia, mentira, falsidade, presunção, orgulho, vaidade, ostentação. Os fariseus tinham uma consciência corrompida. Clamam ao céu por pequenas transgressões do próximo, mas são cegos diante dos próprios pecados, mesmo os graves: mentira, calúnia, homicídio e deicídio.

 

Jesus os desmascarou, os acusou de um pecado fundamental: a falta de verdade na própria vida, o desamor à verdade e inclusive o ódio à verdade. Eles não suportavam o que Jesus dizia: "Eu sou a Verdade". Sua rejeição a Jesus não tinha razões de honestidade. Rejeitaram-no por ser precisamente Ele, com o seu modo de vida singular, com a sua doutrina específica e nova, com os seus ensinamentos particulares jamais ouvidos antes. Por isso Jesus lhes disse: "Eu vim em nome do meu Pai e vós não me recebeis".

 

Para provar este ódio constam o testemunho da cruz e os relatos da Paixão. A confiança de Cristo no Pai era uma chicotada na presunção dos fariseus. O desprendimento de Cristo era uma chicotada na avareza farisaica. A humildade de Jesus uma chicotada na soberba e no orgulho dos fariseus. Tudo incomodava os fariseus: a segurança de Cristo, a sua virilidade, o seu amor pelos pobres e pecadores, a sua autoridade, a sua simplicidade, o seu porte distinto, seu sorriso sereno, o brilho dos seus olhos... Tudo para os fariseus era motivo de ódio. "Derrubemos e desfaçamo-nos do Justo!".

 

Diante dos chefes políticos

 

É respeitoso com eles. Faz ver qual é a sua missão, recebida do Alto. Põe-nos em seu lugar: a César o que é de César. Procura lhes abrir a verdade da sua mensagem. Inclusive os desculpa, como a Pilatos. Não se rebaixa à curiosidade doentia de Herodes.

               

Em geral, Jesus soube enfrentar os inimigos sem medo. Continua com a posição definida, ainda que incômoda para eles (cf. Jo 11,14-16), guiado pela meta que o Pai lhe confiou, que é de índole sobrenatural (cf. Mc 8,33).

               

Continua pregando, esperando ser escutado apesar de posições cegas (Lc 20, 47-48).

               

Quando vê a iminência da morte que lhe estão preparando, continua lutando, não para ganhar amigos, mas para fazer um último esforço e terminar de todo a sua missão. Os inimigos nunca o intimidaram nem frearam (cf. Lc 21, 37-38).

               

Não evitava o inimigo nem procura enfrenta-lo. Não se agita para vencer. Seu objetivo não é ser reconhecido vencedor, mas alcançar o ideal (cf. Jo 19,30). Jesus sabe se afastar de um ataque físico quando considera oportuno continuar a sua obra antes que a sua hora chegue (cf. Jo 8, 59; Lc 4, 23-30).

 

 

3. Jesus e seu inimigo principal, Satanás

 

É o inimigo verdadeiro de Jesus. Jesus luta contra ele e contra os seus planos, como veremos no próximo capítulo. É atacado por ele. O inimigo age no mundo (cf. Jo 13, 2), procura condenar o homem (cf. Mt 13,19). Por isso Jesus procura vencê-lo (cf. Jo 12,31). Sua luta contra Satanás é a luta contra o mal. Cristo busca, antes de tudo, fazer o bem, construir o Reino de Deus.

 

 

CONCLUSÃO: No coração de Jesus não cabiam inimigos. Para Ele todos somos dignos do amor do Pai. A todos Ele veio salvar. Quem se afasta de Jesus o faz conscientemente, porque não quer se abrir ao seu amor. Pena, porque perdem o calor e o carinho desse Coração misericordioso de Jesus! Ele sempre luta pela verdade, não contra as pessoas (cf. Mt 22, 23-40). De tudo isso se deduz que Jesus ama os seus inimigos. Procura dar a eles o tesouro da salvação que traz consigo. Respeita-os, sem lhes devolver a pedra que lhe atiram. Chega a sacudi-los fortemente, porém, com palavras duras, nunca para os ofender, mas para lhes arrancar a dureza de coração. Podemos dizer que o seu inimigo é o pecado, nunca o homem. Mas esse pecado se aninha no coração do homem.

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