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Olho-o e amou-o.
Ir. Murilo Silveira, nLC
Às vezes penso: por que eu? Tantos outros por aí, tão melhores que eu... por quê? É um mistério! Ainda mais quando você cai do cavalo como São Paulo em sua conversão. Admito, não era católico, tampouco protestante. Não era budista, tampouco era Cristão.

Olhou-o e amou-o. A primeira coisa que temos que ter em conta antes de começar a dar um testemunho vocacional, contar a história de como vim parar aqui, o que aconteceu e tudo mais, é preciso ter em conta essa verdade sobre a vocação: Deus nos ama infinitamente, e por isso no chamou para o seguirmos tão perto.

 

Às vezes penso: por que eu? Tantos outros por aí, tão melhores que eu... por quê? É um mistério! Ainda mais quando você cai do cavalo como São Paulo em sua conversão. Admito, não era católico, tampouco protestante. Não era budista, tampouco era Cristão. Era um jovem a mais no mundo, que buscava a felicidade em coisas lícitas, sim, mas coisas que nos preenchem temporariamente. Fiz a primeira comunhão, a crisma, encontro de jovens... mas nada disso me chamou muito a atenção. Enfim, era um pagão, não gostava da Igreja e Jesus era apenas um personagem que tinha conseguido fazer historia.

 

Enfim... como cheguei aqui? Um amigo meu participava de um grupo de jovens na cidade de São Paulo do Moviemento Regnum Christi. Em maio do ano passado, tivemos a visita do Santo Padre ao Brasil... e o padre que coordenava este grupo de jovens (o Pe. Peter Shekelton, LC) era um dos responsáveis por juntar os voluntários que iam participar do Encontro com o Papa (pois o encontro ia ser no Estádio do Pacaembu e precisava de muitos voluntários para organizar o evento). E esse meu amigo me convidou para ir ajudar, e eu acatei na mesma hora ao convite, pois eu ia perder alguns dias de aula e eu sempre gostei de grandes eventos, de viajar, de sair um pouco da vida rotineira de cada dia. Falo isso porque eu não fui para ver o Santo Padre (pois para mim ele era só uma pessoa famosa), nem porque eu queria ajudar no evento... fui pelos meus motivos egoístas.

 

O evento foi incrível. Todos os jovens, religiosos, religiosas, deram um exemplo muito grande de fé e amor ao Papa... O que para mim foi uma grande coisa: Vendo tudo isso, o Papa não é só uma pessoa famosa... tem algo por detrás. Um dos grupos de religiosos que vi lá foi os noviços da Legião. Lembro-me de uns jovens de preto, passei ao lado da arquibancada onde estavam, talvez até passei ao lado de algum dos que hoje, são meus companheiros de noviciado. E uma coisa que eu gostei muito e que foi fundamental para o primeiro contato e a primeira identificação com o movimento foi o exemplo dos jovens que eram voluntários junto comigo. Todos muito alegres, muito empolgados com tudo que estava acontecendo. Lembro-me que dormimos (uns 20 mais ou menos) em uma sala, alguns dormiram no sofá, em colchonete, tudo muito apertado, mas muito divertido: nunca tinha me imaginado em um lugar assim. Tínhamos que esperar para usar o banheiro, para tomar banho... Creio que eu era o mais tranqüilo dali e fiquei por ultimo da fila para tomar banho... e acabou que eu não tomei. Mas isso não importa, o que é realmente importante é o testemunho de alegria ao entregar-se a Jesus Cristo que eles me deram.

 

Volto a minha vida em Itu e logo esse meu amigo me fala que o Pe. Peter gostaria de ter uma reunião comigo e com o outro jovem que havia ido ao Encontro com o Papa... eu fui, sem saber muito do que ia se tratar, o que ia acontecer ali. E a primeira coisa que o padre nos falou foi sobre o discurso do Papa durante o encontro, pois ele achava (eu tinha certeza) que muitos não puderam ouvir o que o papa falava. E ali falou sobre entregar-se a Cristo, escolher a Cristo como sentido da vida, usando a passagem do evangelho que fala do Jovem Rico. E aí foi que eu tomei a decisão de vir... mentira, o discurso foi profundo mas não é para tanto. E nessa reunião o padre me convidou para ir nas próximas missões de Corpus Christi. Eu fui, com muita alegria (ficar longe de casa mais de 4 dias! Isso Nunca aconteceu....). Mas fui sem saber o que eram as tais missões.

 

Na mesma semana em que fui para essas missões eu comecei a namorar. Depois dessas missões, duas coisas moviam o tal do amor que existia no meu coração: a minha namorada e Cristo. E Cristo? Sim, ele mesmo. Experimentei a Cristo nessas missões... Foi uma experiência muito forte. Vi o amor... esse amor simples, de entrega, de sacrifício. Resumindo tudo o que foram essas primeiras missões na minha vida, foi como a parábola do Filho pródigo, quando esse filho que foi embora retorna ao Pai. A partir dessas missões eu já era um católico. Tinha me confessado e voltei a ir à missa com meus pais. Rezava as orações do Manual da Juventude Missionária... enfim, estava começando de fato (e de verdade) ser um cristão católico.

 

No dia 13 de junho, tinha marcado uma visita do padre em casa e o resultado dessa visita foi que surgiu o convite para que eu fosse às missões para a Amazônia do mês de julho. E eu, como bom aventureiro que sou nem gostei da idéia. Meus pais deixaram... e eu ansiosamente esperava o dia. (e o namoro continuava bem). E um acontecimento é importante ressaltar: No mês de julho, na cidade vizinha da minha, Salto, ia ter o concurso de teatro amador da cidade. E eu fazia parte de um grupo de teatro e nós aguardávamos com muita (mas muita mesmo) ansiedade esse concurso: era a nossa chance de ganhar nome para o grupo, pois já tínhamos uma peça muito boa para apresentar. E o que aconteceu: missões ou o concurso? Escolhi as missões com muito sacrifício por ter deixado o teatro. Tentei de todos os modos deixar a nossa apresentação para depois que eu voltasse, mas não teve jeito: tive que ir embora pra Amazônia e o teatro ficaria para o ano que vem. E foi isso mesmo que eu disse: vão ter anos e anos para participarmos de concursos e mais concursos... mas quando irei em missões pra Amazônia de novo?

 

Chegou o grande dia das missões: malas prontas, vacina contra febre amarela tomada, passagem na mão e lá vamos nós. Estava gostando muito de tudo: os jovens que eu já conhecia que iam comigo, o fato de estar viajando com um sacerdote e um Irmão religioso... mas não sabendo o que eram o Movimento Regnum Christi e a Legião de Cristo. Conhecia alguma coisinha, pois estava lendo Minha Vida é Cristo e já ia achando interessante tudo que se relacionava com Nuestro Padre, com as missões, com a Igreja.

 

Três pontos que acho importante ressaltar das missões na Amazônia:

O primeiro é o contato freqüente com a Eucaristia. Quando eu viajei para lá, eu não tinha muita noção do que era realmente a Eucaristia. Não sabia mesmo... O dia em que caiu a ficha por assim dizer, foi em uma das primeiras comunidades ribeirinhas que estávamos visitando, onde o Pe. Peter, durante a homilia, falava sobre a Eucaristia: e ele falava nas seguintes palavras:

Estão vendo esse pão? Estão vendo esse vinho? Daqui a pouco não será mais vinho e nem pão... Será o corpo e o sangue de Cristo! E não será um símbolo, uma coisa que representa, ou um faz de conta... È O CORPO de Cristo

 

E nesse momento minha fé deu um pulo esplendoroso: era Jesus que vinha ali... Mas como podia ser? Como tu vens a mim, senhor? ... E com quanto fervor eu não vivia as missas... Recebia a Cristo em meu coração duas vezes por dia e ali eu pedia para cumprir com a vontade dele.

 

O outro ponto importante é a convivência com um sacerdote e um religioso. Que testemunho! São pessoas normais, que fazem tudo o que fazemos, que se aventuram como os jovens estavam se aventurando, mas tudo banhado em um profundo amor a Cristo que transmitiam através do grande exemplo de caridade, de serviço e de exemplo de oração. Morria de curiosidade de saber o que faziam depois que todos os jovens iam dormir... porque ficavam escrevendo, lendo, pensando... (hoje já sei muito bem o que faziam...)

 

O outro ponto é que eu percebi que Deus queria algo maior de mim. Estava ali, me entregando sim. Mas, por que não me entregar mais? Por que me contentar em me entregar pela metade, enquanto posso dar tudo de mim a Cristo? (....) E isso foi guiando a minha vivência nessas missões: arranjar todos os meios para entregar-me totalmente a Cristo... até que passou pela minha cabeça: por que não ser como o padre e o irmão? E nisso já estava um rebuliço na minha cabeça: o que eu tenho que fazer para virar padre (era assim que eu pensava). E minha família? E minhas amigas? E minha namorada? (...) Céus, o que faço?

 

Até o ultimo dia de missões eu ainda não estava decidido. Queria que voltasse o momento do avião, para eu registrar bem o que passava pela minha cabeça. Mas a sorte é que minha poltrona no avião ficou afastada de todo mundo, ou seja, fiquei isolado: eu, o mundo que passava fora da janela e Deus. Enfim, a questão é que depois de pegarmos as malas, passamos pela porta e lá vi meus pais e meu um aperto no coração e lembro-me que falei: Sim, eu vou.

 

Mas... vou pra onde? Fazer o que? Como abandonarei tudo para virar padre? E isso era o fim do mês de julho. Demorou um tempo do meu retorno e eu falei com o Pe. Peter Shekelton, que era o meu diretor espiritual na ocasião. Para mim parecia cedo, podia ser uma decisão precipitada, mas o que me confortava era que eu sentia que era a vontade de Deus para mim. E o Pe. Peter me explicou qual era o procedimento, me falou do candidatado, do noviciado. Nisso, havia cinco meses até o início do candidatado. Vivi esses cinco meses muito perto do Movimento, principalmente de dois companheiros meus que viriam comigo ao candidatado. Um deles está comigo aqui no noviciado, o Ir. Pedro Peixoto, na época o Pedro, ou Tio Pedro. Vivemos muito amigos nesse tempo, e o nosso lema era Viva Cristo Rei! (frase que bradavam os cristãos durante a Guerra Cristera, no México.) Enfim, tudo estava começando a entrar nos eixos, depois que eu terminei o namoro e conversei com os meus pais sobre a minha decisão. Vivi muito perto de Cristo Eucaristia; sempre ia durante a tarde na Igreja Matriz de Itu, à capela do Santíssimo, onde o pároco conservava o Santíssimo exposto durante todo o dia.

 

Amadureci muito o conhecimento de uma suposta vocação. Aprendia muito de Nuestro Padre Fundador. Experimentava do amor de Cristo por mim ao me eleger... enfim, foram cinco meses de muita luta,  onde eu precisava renovar o meu SIM a cada dia.

 

Para concluir, a doce presença de Nossa Senhora também teve o seu papel. Tudo começou em maio, mês dedicado à ela. Entregava-me a Ela depois de cada comunhão. Sabia que se eu caminhasse junto dela, tudo daria certo. Pois não existe criatura mais exemplar e mais perfeita que ela... foi a primeira que soube cumprir em tudo a vontade de Deus em sua vida.  Hoje, peço todos os dias a Ela a graça de poder corresponder fielmente ao plano de Deus na minha vida. Pois no fim, o que importa e o que é mais fundamental em nossa vida, onde encontramos nossa maior alegria, é fazer aquilo que Deus quer que façamos

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Um apostolado dos Legionários de Cristo e do Regnum Christi a serviço da Igreja.